Domingo, 28 de Junho de 2020

Prazer de escrever

PRAZER DE ESCREVER

Regulamento

Escritores: Filhos, filhas, nora, genros, netas e netos de Ildeu e Maria Nylza.

Tipo de histórias: Histórias curtas, ficção (histórias inventadas) que podem ser baseadas em fatos reais.

Tamanho das histórias: meia página até duas páginas.

Apresentação: Digitadas em arquivo Word

Os netos que participarem receberão um prêmio de R$ 50,00.

As histórias serão publicadas em Blog.

publicado por Ildeu Araújo às 17:56
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Sábado, 10 de Março de 2012

LOLÓ

Ildeu Geraldo de Araújo – 11/10/2011

 

− Ah, Loló, Margarida foi como uma irmã para mim...

Heloísa estremeceu. Não era chamada pelo apelido há uns trinta anos. Ficou de pé, ao lado do caixão de sua mãe, recebendo os pêsames dos parentes e amigos da família, constrangida por não se lembrar de muitos deles. Sua carreira a afastara daquele universo por tempo demais.

A sala de visitas tinha sido transformada em velório; ficou cheia a tarde toda e boa parte da noite. Lá pelas onze horas ficaram apenas as pessoas mais próximas. Heloisa voltou para junto de sua mãe e contemplou, por um longo tempo, o rosto sem vida, mas envolto numa grande serenidade. Foi chegando, vinda de longe, aquela voz que sempre a guiou e consolou:

... chora não, Loló, não foi nada, deixa a mamãe passar remédio, vou acabar com esses marimbondos, eles vão ver...

... pensa nisso não, filhinha, vai demorar muito, todo mundo morre, mas você ainda é novinha...

... não, Loló, não dá certo. Mãe é mãe e professora é professora. Você vai pra turma da D. Violeta...

... isso é natural, filhinha, você virou moça, o incômodo virá todo mês, mas dura só três dias, depois passa...

... ah, minha filha, que voz linda; canta a Ave Maria pra mim; não sabia que tinha uma cantora em casa...

... que Deus a proteja; cuidado, Loló, Rio de janeiro não é Bom Jesus, cuidado minha filha ...

Heloisa se sentiu muito cansada, sentou-se num dos bancos, recostou a cabeça na parede, fechou os olhos. Suas lembranças continuaram, agora, não como o fluir alegre de um regato, mas como um turbilhão: Rio, São Paulo, Paris, Nova York, Milão... Ela cantando ... vocalizes... agudos impossíveis... árias de perder o fôlego... sono... sonho...

Aplausos, muitos aplausos, ela estava entrando num imenso salão de baile rodeada por damas e cavalheiros ricamente vestidos. Os rostos cobertos por máscaras coloridas, enfeitadas com lantejoulas. Ela usava um longo vestido de seda, ornado com pedras coloridas.  Era conduzida por um homem com uma roupa bizarra, que cantava em francês: “…Voici ma Juliette!” Sabia que tinha de cantar alguma coisa, mas não se lembrava. Felizmente os cavalheiros fizeram uma roda em volta dela, louvando, em coro, sua beleza, dando-lhe tempo de se recompor. Ouviu sua voz aguda e límpida como um cristal, entoar: “Um mundo de encantamento brota diante dos meus olhos. Tudo me fascina e me inebria! E minha alma encantada é impelida para a vida, Como um pássaro voaria para o céu!” Aplausos, aplausos... Estava agora vestida como uma princesa da China, propunha a seus pretendentes três enigmas que não conseguiam resolver e a deixavam sozinha no imenso salão imperial... Sob o ritmo vibrante das castanholas, Carmem evoluía alegremente pela praça de Sevilha: “O amor é um pássaro rebelde”. Aplausos...  Agora era a Bela Adormecida sendo acordada por um beijo...

− Heloisa, Heloisa.

Heloisa demorou alguns segundos para voltar do mundo dos sonhos.

− Padre Carlos está aqui.

Padre Carlos estava junto ao caixão de Dona Margarida. Heloisa permaneceu sentada no banco, observando, pelas costas, aquele homem que fora tão importante em sua vida. Devia estar com quase setenta anos, mas continuava esbelto e aprumado, o que aumentava sua altura. Os cabelos fartos e um pouco longos estavam totalmente brancos. Se estivesse de fraque seria a perfeita figura de um maestro. Heloisa foi para junto dele. Ele continuou olhando para o rosto de Dona Margarida.

− Ela está tão serena.

− Mamãe sempre foi assim. Serena e transmitindo serenidade.

− Uma bela maneira de entrar na eternidade. Ela agora está diante da Verdade. Acabaram-se todas as dúvidas.

−O senhor tem dúvidas, Padre Carlos?

Ele finalmente se voltou para ela e sorriu.

− Quem não as tem, Heloisa? Fé não é certeza. É um risco, uma esperança. Se não parecesse herético eu diria que é uma aposta.

− Sempre pensei em você como uma pessoa que tem todas as respostas, a verdade.

Ele olhou para ela com muito carinho e sorriu.

− O tempo é muito amoroso com você. Está cada vez mais bonita.

− São seus olhos. Seus olhos e a perícia dos cirurgiões. Na vida que escolhi, ou que escolheram para mim, é proibido envelhecer.

− Vejo certa recriminação na sua fala. Fui um dos que “escolheram” sua vida?

− Sem dúvida, mas não estou reclamando, de forma nenhuma. Minha vida tem sido muito boa.

Agora eles estavam praticamente sozinhos na sala velório. As outras pessoas estavam na varanda contando causos ou na cozinha bebendo café ou algo mais reconfortante.  Foram para o canto da sala e se sentaram num sofá.

− E sua vida, Padre Carlos, tem sido boa?

− Como Deus é servido, Heloisa. Há sempre um risco enorme de o padre cair na rotina e se transformar num “burocrata do sagrado”, como diz um colega.

Conversaram longamente sobre a vida e as experiências que tiveram. Padre Carlos estava encantado com a mulher na qual Heloisa se transformara: culta, viajada, sensível, dona de uma aguda percepção da vida e do ser humano. Sem se importar com a prudência lhe confessa:

− Aquele beijo, Heloisa, foi uma experiência indelével em minha vida.

Heloisa levou um choque. Jamais imaginara ouvir isso de Carlos. Ela era jovem e estava apaixonada. O beijo foi um impulso irresistível e as consequências, para ela, foram drásticas. Teve de deixar a segurança e o conforto de seu lar. Abandonar o descompromisso e a irresponsabilidade de uma adolescência apenas começada e se lançar no mundo, na dureza da vida adulta. Tinha menos que 17 anos...

− Pois para mim foi apenas o impulso de uma adolescente boba – mentiu com raiva − tive outros bem mais ardentes e prazerosos.

− É, com certeza você teve.

Ficaram calados. O dia começava a clarear. Ele se levantou, estendeu-lhe a mão.

− Nos vemos antes do sepultamento. Virei celebrar as exéquias de sua mãe.

Ela se levantou, olhou através da cortina de suas lágrimas, para o fundo dos olhos dele, ignorou sua mão estendida e lhe deu um abraço que parecia não ter fim.

publicado por Ildeu Araújo às 23:49
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Sexta-feira, 20 de Janeiro de 2012

Folhetim

publicado por Ildeu Araújo às 21:51
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Segunda-feira, 2 de Janeiro de 2012

ME TARZAN

LEÃO

 

 

− PAI!!!

Gritei sem querer; meu pai apareceu na hora, pegou minha mão e me tirou do meio da roda de meninos, que se abriu. Meu pai não disse nada e me levou para casa.

Minha mãe perguntou o que tinha acontecido.

− Nada – meu pai disse – Paulo levou um soco no peito.

− Deixe eu ver. Não tem marca nenhuma. Quem bateu nele?

− Um menino um pouco maior do que ele. Coisa de criança.

− Tá vendo, Paulo, é por isso que não gosto que você vá ao Cine Grátis, só tem moleque. Beba, é água com açúcar.

Custei a dormir. Quando fechava os olhos, via o  Carlitos fazendo palhaçada na tela do Cine Grátis, o Pedrão empurrando todo mundo, dando peitada e ombrada. Eu firmei nas pernas e escorei ele. Ele mandou um soco no meu peito, eu vi estrela e fiquei sem ar.

Por que eu fui gritar? Devia ter dado uma rasteira nele. Aí é que eu ia apanhar mesmo. Vou arrumar um soco inglês e arrebentar a cara dele. Se eu tivesse um cabo de aço ele ia ver. O Leão não para de latir.

Minha mãe me contou que quando eu era pequeno, era muito doente. Ela tinha medo que eu morresse, igual meu irmão mais velho, que morreu com três dias. A Vó me deu um gato e um cachorro, os dois eram pretos. Disse pra minha mãe: “O que tiver de acontecer com o Paulo, vai acontecer com o gato ou com o cachorro”.

Do gato eu nem me lembro; minha mãe disse que ele foi ficando pesteado e morreu quando eu era neném. Leão, o meu cachorro, foi atropelado e a mão direita, lá dele, foi esmigalhada e ficou presa por um pedaço de pele. Quando ele andava manquitolando em três patas, balançava o coto de mão.

No dia seguinte ao Cine Grátis, acordei normal, tomei meu café com leite e já estava na porta para sair quando minha mãe perguntou:

− Melhorou, Paulo?

− Melhorei de quê?

− Da dor no peito.

Aí voltou tudo. A dor no peito, a falta de ar, a vergonha de ter gritado, o ódio do Pedrão. Na escola eu tentei trocar a figurinha da Esfinge pelo soco inglês do Alfredo, mas ele pediu uma fortuna, queria a coleção completa das Balas Atlas, o saquinho de bolas de gude e o santinho de Santo Antônio que eu tinha ganhado na aula de religião. Acabei concordando. Quando estávamos fazendo a troca a D. Margarida viu a gente conversando, tomou o soco inglês, o álbum de figurinhas, o santinho e ainda pôs a gente de castigo.

Na matinê de domingo assisti “Tarzan e a Fonte Mágica” com o Alfredo. Eu gostava mais do Tarzan antigo, o John Weissmuller.

 

− O Lex Barker é muito melhor, é mais novo e mais forte.

− É, Alfredo, mas o John Weissmuller luta melhor, lembra da luta dele com o leão no “Tarzan e as Sereias”.

− Não tinha leão neste filme, você tá doido.

− Então foi no “Tarzan e a Mulher Leopardo”.

Voltei pra casa discutindo com o Alfredo. Quando passamos perto da igreja, vimos o Pedrão jogando bola com a turma dele. Eu chamei o Alfredo para o outro lado da rua. Acelerei o passo. Quando já estava para dobrar a esquina ouvi: “PAIÊÊÊ!”

 

− Que cara é essa, Paulo?

Não respondi nada pra minha mãe. Almocei calado e fui ler debaixo do pé de manga. Mas não conseguia me concentrar no Robinson Crusoé. Aquele “PAIÊÊÊ!” não saía da minha cabeça. Vou matar aquele desgraçado. Fiquei imaginando que eu era o Tarzan, pegava o Pedrão pela gola, suspendia ele bem alto e jogava no meio de um bando de tigres famintos. Quando eu fosse engenheiro e chefe da Fábrica de Tecido da Renascença, o Pedrão ia me pedir emprego. Contratava ele como meu engraxate. Ele ia viver ajoelhado aos meus pés, engraxando meus sapatos. Se tivesse outra guerra, eu ia ser general e mandava o Pedrão pra batalha mais violenta. Ele ia acabar num campo de concentração, morrendo numa câmara de gás.

Eu acabei indo ao Cine Grátis, na quarta-feira seguinte. Quando saí de casa, deixei o portão aberto e meu cachorro me acompanhou. Fiquei mais atrás, para evitar confusão, como havia prometido à minha mãe. Subi numa pilha de tijolos para ver melhor. No intervalo, enquanto o filme do Carlitos era rebobinado, o Pedrão me achou.

− Desce daí, medroso. Você não é homem não?

− Desci com toda calma e quando estava em frente ao Pedrão, gritei com toda força:

− Ôôô, ô-ô-ô-ôôô- ô-ô-ô-ôôô!

Um leão enorme saltou sobre o Pedrão e o derrubou, colocando a pata no seu peito.

Pedrão começou a chorar e a pedir perdão. Sua calça estava molhada e tinha uma poça enorme de xixi em volta dele. Eu ordenei ao leão:

− Basta. Vamos poupá-lo.

Saí de lá com passos firmes. O leão ia ao meu lado rosnando e mostrando os dentes para as pessoas, que nos olhavam morrendo de medo.

Quando virei a esquina, Leão estava manquitolando ao meu lado.

publicado por Ildeu Araújo às 20:15
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